Tratamento de Cefaleia em Salvas através da MTC – Por Ana Paula Zampirolli

cefaleia-1O termo “cefaleia em salvas” (CS) refere-se a dor de cabeça que se repete ao longo de um período de tempo, é um tipo de dor de cabeça diferente da enxaqueca e da cefaleia tipo tensional. É definida como uma doença neurológica e é conhecida como uma das piores dores de cabeça que o ser humano pode ter como experiência.

Antigamente conhecida como cefaleia de Horton, cefaleia histamínica, cefaleia agrupada ou cefaleia em cachos, a cefaleia em salvas é uma doença rara.

Ao contrário da enxaqueca, afeta mais homens que mulheres, entre 20 e 40 anos, mais pode ocorrer na infância (raramente). Acomete apenas um lado da cabeça, mais na região da fronte e olho, acompanhada de lacrimeja mento, vermelhidão nos olhos, entupimento nasal, coriza, suor no rosto e queda da pálpebra. Um aspecto marcante é a ritmicidade das crises, tanto com um período preferencial de ocorrer ao longo do ano, como na sua predileção para atacar à noite. As pessoas com CS sofrem com a dor de uma a três vezes por dia durante um período de tempo (o período de salvas), que pode durar de duas semanas a quatro meses.

Os ataques parecem estar ligados ao ritmo circadiano, que é nosso “relógio biológico”. Dessa forma, pessoas que sofrem com cefaleia em salvas podem ter episódios da doença sempre na mesma época do ano ou então em apenas um horário do dia, ou ainda variar tanto o período do ano quanto o horário. Os ataques noturnos podem ser mais graves do que os ataques diurnos.

A cefaleia em salvas pode desaparecer completamente (entrar em “remissão”) por meses ou anos.

Os mecanismos da cefaleia em salvas na medicina ocidental são diversos, mas podemos dividir em três grupos: cronobiológico, vascular e oxigenação:

  • Cronobiológico – se dá porque na CS ocorre à disfunção de um núcleo (núcleo supraquiasmático) numa região pequena e central do cérebro, o hipotálamo. O núcleo supraquiasmático é nosso relógio biológico. É através dele que ocorre o estímulo para a produção e secreção de melatonina na glândula pineal, substância que é alterada no sofredor de CS.
  • Vascular – se dá pelas alterações circulatórias das artérias cerebrais.
  • Oxigenação – interfere na cefaleia, pois muitos pacientes apresentam apneia do sono, uma doença que reduz as taxas de oxigênio no cérebro.

Diferente da cefaleia tensional, a cefaleia em salvas não acontece quando o paciente é exposto a gatilhos, como alimentos, mudanças hormonais ou estresse.

Entretanto, uma vez que o período de salvas começa, o consumo de álcool pode facilmente piorar os sintomas. Por essa razão, pessoas com cefaleia em salvas evitam ingerir bebidas alcoólicas durante as crises.

Existem dois tipos de cefaleia em salvas: episódica e crônica.

  • Cefaleia em salvas episódica: ocorre regularmente entre uma semana e um ano, seguido por um período sem dor de um mês ou mais;
  • Cefaleias em salvas crônica: ocorre regularmente durante mais de um ano, seguido por um período sem dor de cabeça que duram menos de um mês.

Uma pessoa que tem cefaleia em salvas episódica podem desenvolver dores crônicas e vice-versa.

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Sintomas da Cefaleia em salvas:

Dor muito intensa, extrema, em apenas um dos lados da cabeça.

A dor nunca acontece dos dois lados da cabeça. Pode doer cada lado da cabeça alternadamente, uma crise de um lado e a outra do outro lado.

Geralmente a dor de cabeça ocorre sempre do mesmo lado da cabeça.

A crise não é acompanhada por enjoo ou vômitos.

A cefaleia em salvas não vem com sensibilidade à claridade ou barulho.

Hiperemia conjuntiva olho vermelho do mesmo lado da dor

A narina do lado da dor escorre (coriza) e entope apenas uma narina;

Sudorese frontal e facial ipsilateral;

A face incha principalmente do mesmo lado da dor

Os olhos incham especialmente o olho do mesmo lado da dor.

Edema palpebral (inchaço nos olhos);

Miose ou ptose (queda da pálpebra)

Congestão nasal ou rinorréia (coriza nasal)

Sensação de inquietude ou agitação;

O paciente pode sofrer traumas e fraturas ao bater com a cabeça violentamente em paredes ou objetos.

O paciente se retira da presença de outras pessoas e se isola.

Cada crise de cefaleia em salvas dura entre 30 minutos e 2 horas,

Podem ocorrer 3, 4 e até 5 dessas crises de cefaleia em salvas em um único dia.

A crise de cefaleia em salvas vem com hora marcada.

Depois da crise de cefaleia em salvas, a dor de cabeça pode passar completamente,

As crises permanecem diárias por um período que varia entre algumas semanas e alguns meses, e em seguida costumam simplesmente ir embora, chamado “episódio de salvas”. Cada “episódio de salvas” costuma ocorrer na(s) mesma(s) época(s) do ano

“Durante o episódio de salvas”, e apenas durante esse período, o paciente não consegue beber nenhum álcool.

Uma minoria dos portadores de cefaleia em salvas não possui episódios de salvas bem definidos, podendo ter crises de cefaleia em salvas a qualquer época, a qualquer momento.

Diagnóstico na MTC

Na Medicina Ocidental as cefaleias são classificadas como primárias e secundárias. As primárias são aquelas que ocorrem sem etiologia demonstrável pelos exames clínicos ou laboratoriais comuns e as cefaleias secundárias são as provocadas por doenças constatadas em exames clínicos ou laboratoriais.

A cefaleia em salvas é classificada como primárias e migrânea.

Os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da cefaleia na Medicina Tradicional Chinesa (MTC) têm dois quadros de diagnóstico: por meridiano, com base na localização e trajeto da dor; ou por síndrome, a qual dependente de fatores externos ou internos e características da dor; o que geralmente na CS é muito confuso de identificar.

As síndromes podem ser devido ao excesso ou déficit e geral, as síndromes por excesso correspondem, na maioria dos casos à enxaqueca e as síndromes por déficit à cefaleia do tipo tensional. A CS pode ser por síndromes de excesso e/ou déficit, é necessário avaliar cada paciente como individuo.

Fatores externos como clima ou alterações de tempo também ocasionam a cefaleia, entretanto na CS, são variáveis.

Os fatores externos como vento-frio e vento-calor que afetam a parte de cima do corpo e umidade que invade a parte baixa do corpo. A presença de vento calor (Yang excessivo do fígado), pela mucosidade e umidade (deficiência de Qi) principalmente dos rins, também são variáveis e ás vezes não identificados na cefaleia em salvas.

Segundo MACIOCIA (1996), qualquer distúrbio energético capaz de gerar uma doença poderá contribuir na etiologia da cefaleia.

Na MTC as emoções constituem fator primordial no processo de adoecimento, podendo advir desde o período intrauterino e ao longo da vida no relacionamento com os pais e familiares. As emoções, quando excessivas ou reprimidas por suas características Yang podem ter efeito rápido sobre seus órgãos correspondentes, lesando a parte Yin destes. Na relação lesiva das emoções sobre os órgãos, temos que, a raiva lesa o fígado, a alegria excessiva e/ou ansiedade lesa o coração, a preocupação excessiva lesa o baço/pâncreas, a tristeza lesa o pulmão e o medo ou pavor lesa os rins.

Acredito que as emoções seja o fator principal e determinante para o diagnóstico da CS segundo a MTC e base de todo tratamento uma vez que outras características abordadas na MTC são extremamente variáveis; mais relevantes e devendo ser considerados durante o “período da salvas”.

A acupuntura é uma forma segura e minimamente invasiva no procedimento e especificamente pode beneficiar os pacientes que não toleram os medicamentos de dor de cabeça.

acupuntura011Tratamento na MTC

 A intensidade da dor, parte da cabeça (temporal, vértice, occipital, frontal, lateral) bem como sua classificação como (sensação de peso, dor surda, dor em distensão, facada, etc.) pode não só variar de paciente pra paciente como ocorrer todos os sintomas junto e, preferencialmente, de um lado só da cabeça.

Alguns pontos locais são escolhidos pela a localização da dor: dor no meridiano da Vesícula Biliar é indicado o VB6 (Xuanli), Cefaleia frontal: VG23 (shangxing) e VB14 (Yangbai), Cefaleia no vértice: VG20 (Baihui) e VG21 (Qianding), Cefaleia occipital: B10 (Tianzhu) e VG19 (Houding), Cefaleia temporal: VB8 (Shuaigu) e Taiyang. (MACIOCIA, 1996; YAMAMURA, 2004)

Outros pontos utilizados:

Origem psíquica e decorrente de emoções reprimidas do tipo raiva, cólera, stress e preocupações que perturbam a mente (Shen), essas emoções afetam o fígado –  F14 (Qimen), VG20 (Baihui),  podendo associar à um quadro de perturbações emocionais, irritação preocupação excessiva, ansiedade, alterações menstruais e ginecológicas: VG-20 (Baihuí) e Yintang. Pontos distantes: IG4 (Hegu), E36 (Zusanli), VC17 (Danzhong), C7 (Shenmen), CS6 (Neiguan), F7 (Taichomg), moxabustão em B18 (Ganshu).

Yang de Fígado – F3 (Taichong) e VB43 (Xiaxi) ou B18 (Ganshu) e VB40 (Qiuxu)

Estagnação do Yang Qi – VB20 (Fengchi), Taiyang, B2 (Zanzhu), Yintang, Yuyao, P7 (Lieque), IG4 (Hegu), E36 (Zusanli), BP6 (Sanyinjao), VC12 (Zhongwan), E40 (Fenglong), E32 (Futu), VG20 (Baihui), E9 (Renying), E43 (Xiangu), E30 (Qichong), para circular o Qi: BP2 (Dadu), BP3 (Taibai), P10 (Yuji), P9 (Taiyuan)

Vazio de Qi dos Rins – VG19 (Houding), VG20 (Baihui), VG21 (Qianding), B2 (Zanzhu), B7 (Tongtian), B10 (Tianzhu), VB20 (Fengchi). B60 (Kunlun), F3 (Taichong), TA3 (Zongzhu). Circular o Qi no canal Tai Yang ID2 (Qiangu), ID3 (Houxi), B65 (Shugu), B66 (Tonggu) e fortalecer o rim R7 (Fuliu), VC4 (Guanyuan)

Alterações de Qi no Fígado por deficiência de Yin – VG23 (Shangling), VB20 (Fengchi), Taiyang, VB14 (Yangbai), nas dores rebeldes associar com B2 (Zanzhu), IG4 (Hegu), E36 (Zusanli), B10 (Tianzhu), VG16 (Fengfu), P7 (Lieque), TA5 (Waiguan), B60 (Kunlun), associada a náuseas e vômitos E25 (Tianshu), E36 (Zusanli), para dissipar a umidade e mucosidade VC12 (Zhongwan), E40 (Fenglong), associada a dismenorréia VG 26 (Daimai), VB27 (Wushu), VB28 (Weidao), VC3 (Zongji), B32 (Ciliao) e BP6 (Sanyinjao), para fortalecer Qi do fígado F3 (Taishong), B18 (Ganshu).

Calor no Estômago – E44 (Neiting), IG4 (Hegu), Yintang, E8 (Touwei), E34 (Liangqiu), VG23 (Shangxing).

 

Referências Bibliográficas

MACIOCIA, G. Os Fundamentos da Medicina Chinesa Um Texto Abrangente para Acupunturistas e Fitoterapeutas, São Paulo: Editora Roca, 1996.

YAMAMURA, Y. Acupuntura tradicional: a arte de inserir. São Paulo. 2a reimpressão atualizada da 2a edição pela Editora Roca, 2004.

 

Ana Paula Zampirolli é bióloga e mestre em paleontologia, bem como acupunturista e professora do Instituto Long Tao.